FELIZ DIA DAS MÃES

Mães da geração Z quebram padrões com amor, diálogo e saúde mental

Novo modelo de maternidade tem sido usado, que prioriza o diálogo e os sentimentos na relação com os filhos;

Gritos, palmadas e castigos severos eram punições comuns na criação de crianças, mas, as novas gerações de mães têm trazido uma subjetividade para as relações com seus filhos, mostrando que o autoritarismo não é a única forma de educar e de amar.

É o caminho que as mães da geração Z – que compreende os nascidos entre 1997 e 2012 – têm tomado, reformulando padrões de criação que eram aceitos socialmente há muito tempo.

A psicóloga, sexóloga e professora da Unesc, Livia Maulaz, explica que um novo modelo de maternar está em prática, valorizando o diálogo e acolhimento.

Essa mudança começa um pouco com as mães Millenials e se consolida mais entre as mães da Geração Z. Configura-se como uma educação com mais diálogo e acolhimento, mas se propõe justamente para uma educação menos violenta e autoritária que vinha sendo passada pelas gerações anteriores.Livia Maulaz, psicóloga, sexóloga e professora da Unesc

A técnica de enfermagem Thayná Brandão, de 27 anos, é mãe da Heloísa e do Hyago, de 8 e 2 anos, respectivamente. Ela conta que, enquanto crescia, não sofreu nenhum tipo de abuso, então pode aproveitar muitas práticas de sua família. Em sua casa, há regras que podem ser mudadas dependendo das situações, mas o diálogo é essencial.

“Eu não sou nenhuma mãe ‘nutella’, claro que conversa é a base de tudo, mas não é só isso. Acredito que todas as crianças precisam de limites, mas também não gosto de abusar de autoridade da minha parte. Usamos de terapia com psicólogo para que elas possam desde pequenos saber lidar com seus sentimentos e emoções da melhor forma.”

Thayná Brandão e seus filhos, Heloísa e Hyago.

Esse método focado na conversa também é usado pela jornalista Lizzie Almeida, de 24 anos, mãe da Maria Alice, de 3 anos. Segundo ela, sua criação foi muito conservadora, por isso, suas vontades e individualidade não eram muito respeitadas.

Isso fez com que Lizzie escolhesse outro tipo de educação para sua filha, com incentivo para a autonomia, liberdade de escolha e senso crítico.

Quero que ela cresça segura para ser quem é e preparada para o mundo, sem imposições desnecessárias. No fim, minha criação me ensinou muito, inclusive sobre o que eu não queria repetir. E é a partir disso que estou construindo uma maternidade mais consciente, respeitosa e alinhada com os valores que acredito.Lizzie Almeida, jornalista

A jornalista explica que ela e o pai de Maria Alice sempre priorizaram uma criação sem violência, seja física ou verbal, com o diálogo sendo a principal ferramenta.

Maternidade tradicional x maternidade na geração Z

A psicóloga Maulaz mostra que essa decisão de concentrar em uma educação sentimental é geracional, uma vez que cada geração tenta reproduzir o que considerou positivo de sua própria criação e tenta reformular aquilo que foi negativo.

“Ser mãe hoje é também se olhar enquanto filha. A criação que tivemos impacta naquilo que queremos e no que não queremos para os filhos. Mas é muito importante lembrar que nossos filhos não são nós. Eles são pessoas únicas, vivendo suas vidas dentro da realidade deles, e não uma extensão da nossa infância”, afirma.

Além disso, a especialista também destaca que a importância que essa geração dá para a saúde mental tem impacto na forma de cuidar dos filhos.

“As gerações, a partir dos Millenials são os que mais falam abertamente sobre saúde mental e isso é muito positivo. Falar sobre saúde mental é estar consciente de que problemas mentais e dificuldades existem e não há motivo para que isso seja um problema a ser ignorado. Isso faz com que essas mulheres dessa geração estejam mais disponíveis para o cuidado e tratem problemas de ordem psicológica com mais facilidade e frequência”, destaca.

De acordo com Lizzie, alguns padrões de maternidade tradicional foram “quebrados” na criação de sua filha, como castigos e punições, introdução alimentar tradicional, obediência cega e violência.

“Outro ponto importante para mim é não comparar o desenvolvimento dela com o de outras crianças, nem tentar acelerar aprendizados. Prefiro respeitar o tempo dela e conduzir esse processo com base na orientação de especialistas, como psicólogos, fonoaudiólogos e pediatras”, disse.

Lizzie Almeida e sua filha, Maria Alice.

Outro ponto levantado por Thayná é que a maternidade é única para cada pessoa, assim o que pode funcionar para uma mãe, pode não funcionar para outra, pois cada uma tem seus hábitos, rotinas e decisões.

Uso na minha maternidade o que dá certo para mim, com meus filhos. Não existe maternidade tradicional, mas sim maternidade funcional. Penso que cada mãe/família tem que fazer o que funciona.Thayná Brandão, técnica de enfermagem

Interferências na criação dos filhos

As diferenças entre formas de cuidar podem ser conflitantes dentro da mesma família. Lizzie conta que muitas pessoas de outras gerações já tentaram interferir em suas escolhas e decisões.

Segundo a jornalista, as opiniões e julgamentos de outras pessoas podem gerar quebra de confiança, especialmente quando os seus desejos como mãe são desrespeitados. Ela destaca que essa é uma grande dificuldade na criação de sua filha.

Muitas vezes, as pessoas opinam sobre o que eu deveria ou não fazer, e sinto que isso também vem do fato de me verem como uma mãe mais nova, como se isso diminuísse minha capacidade de tomar boas decisões.Lizzie Almeida, jornalista

Por outro lado, Thayná relata que nunca sofreu com interferências, especialmente por ser muito assertiva na forma de educar e cuidar de suas crianças.

Redes sociais e pressão materna

Essa geração de mães lida com um fator novo: as redes sociais. O que pode ser um facilitador e uma ferramenta para auxiliar na maternidade, pode ser nocivo, afirma Maulaz. A idealização da maternidade e o desenvolvimento do “ideal de mãe” podem impactar na forma de criar os filhos.

A psicóloga ressalta que esse anseio pela maternidade perfeita faz com que as mulheres esqueçam que não tem como ser perfeita o tempo inteiro e que errar faz parte da vivência humana.

A ‘mãe impossível’ seria aquela que vai sempre acertar, vai sempre fazer o certo e o melhor para seus filhos. E essa mãe não existe. Não encarar isso como fato, pode acabar gerando mal estar, sentimento de frustração e sentimento de fracasso, por exemplo. Errar faz parte da vivência humana e não tem como fugir disso. Não estar consciente disso pode fazer com que elas, ao tentarem acertar sempre, acabem por pecar por excesso, transformando também a tarefa do cuidado em um fardo.Livia Maulaz, psicóloga

Ambas as entrevistadas afirmaram que utilizam as redes sociais, porém isso não as molda como mães. Elas explicam que é preciso dosar e filtrar os conteúdos, utilizando-os com consciência.

Além disso, tanto Lizzie quanto Thayná explicam que sentem muita pressão ao criar os filhos na sociedade atual. O peso carregado pela jornalista é justamente da maternidade perfeita e sem erros.

“Tenho a impressão de que a nossa geração foi criada para não errar, como se precisássemos dar conta de tudo com excelência, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Para nós, mulheres, isso pesa ainda mais. Existe uma cobrança constante: se escolhemos a maternidade, muitas vezes somos vistas como menos profissionais; se não escolhemos, também somos julgadas. É como se nunca existisse uma escolha ‘certa’.”

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