Há muitos anos que circulam histórias sobre métodos capazes de alterar a quilometragem de um carro usado, fazendo-o parecer mais novo.
Com a popularização dos quadros de instrumentos digitais, isso seria até mais fácil, já que bastaria mudar o número exibido na tela.
Um dos mecanismos que propõem tal truque é o “km freezer”: trata-se de um pequeno aparelho eletrônico, que promete congelar a quilometragem do carro independentemente da distância percorrida. Mas não é bem assim…
O que é?…
Segundo a descrição em diferentes anúncios na internet, o “km freezer” é instalado ao longo do chicote original que se conecta, atrás do painel, ao quadro de instrumentos do carro.
Ele utiliza microcontroladores que filtram as atualizações de distância enviadas ao painel através das portas CAN.
Alegadamente, o dispositivo tem vários modos de funcionamento: desde parar completamente a contagem do odômetro até reduzir em 30% da quilometragem real, dependendo do modelo.
Na internet, é possível encontrar tal equipamento com ampla cobertura de marcas e modelos. Os preços giram em torno de R$ 5.000…
É ilegal?
Segundo o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, a adulteração do odômetro de um carro pode ser enquadrada como crime de estelionato.
Além disso, explica o TJDF em publicação sobre o assunto, se a alteração foi feita “por uma agência de veículos, o dono ou representante da empresa pode responder por crime contras as relações de consumo”.
Diante desse risco, uma das fabricantes de “km freezer” conferidas pela reportagem se exime de “qualquer responsabilidade por uma utilização incorreta ou por infrações legais”.
Segundo a loja, “o módulo destina-se exclusivamente a fins de teste em pistas fechadas ou bancos de ensaio, e não está aprovado para utilização em estradas públicas”.
Funciona?
No caso do odômetro, é teoricamente possível alterar o número que é visto no painel, mas seria apenas na parte em que os olhos enxergam…
Isso porque bastaria a um mecânico conectar um scanner de diagnóstico para conferir, no registro original, um número diferente — explica um especialista de cibersegurança automotiva sob anonimato.
Esse “registro original”, diz o engenheiro, se refere, na maioria dos casos, aos EEPROMs. São pequenos computadores que armazenam dados mesmo sem energia. Por isso, são comuns no registro das informações mais vitais do histórico de um veículo.
O segredo dos carros mais modernos está justamente no acesso aos EEPROMs. “Para modificar esses dados, muitas vezes é necessário vencer uma criptografia que só poucas pessoas ligadas à marca têm acesso”, explica…
Também é comum que haja mais de um dispositivo de memória não-volátil armazenando a quilometragem, facilitando uma conferência cruzada dos dados. Algumas marcas vão além e enviam, periodicamente, o registro de quilometragem do carro para um servidor externo.
Assim, a única forma de evitar uma inconsistência nos diferentes odômetros espalhados pelo veículo é, “literalmente hackeando o carro e o servidor da montadora”, afirma o especialista.
“É um trabalho que certamente não vale a pena, dado o desafio de altíssima complexidade”…
