O mês de abril trouxe uma combinação que o produtor capixaba de café conilon já conhece e que nunca é fácil de enfrentar. O Indicador Cepea/Esalq do robusta tipo 6, peneira 13 acima, a retirar no Espírito Santo, registrou média de R$ 903,90 por saca de 60 kg entre 1º e 20 de abril, o menor valor desde março de 2024. Em relação a março de 2026, a queda supera 11%. O conilon não estava nesse patamar há mais de dois anos.
Existem algumas explicações técnicas para esse movimento. A proximidade da colheita que avança com força em abril no Norte do estado, antecipa a chegada de volume ao mercado. Os compradores, cientes de que a oferta vai aumentar nas próximas semanas, recuam nas negociações e forçam o preço para baixo antes mesmo de o café chegar ao armazém. É uma dinâmica conhecida da comercialização agrícola: o mercado precifica o futuro, não o presente.
O arábica seguiu a mesma direção, ainda que com menor intensidade. O Indicador Cepea/Esalq do arábica tipo 6, bebida dura para melhor, posto na capital paulista, teve média de R$ 1.824,91 por saca em abril, queda de 4,6% em relação a março e o menor patamar desde julho de 2025. O movimento não é exclusivo do conilon. É o mercado cafeeiro brasileiro reagindo, de forma ampla, à perspectiva de safra volumosa e à cautela dos agentes diante de um cenário externo volátil.
Esse cenário externo tem peso. Segundo o Cepea, os cenários geopolítico e cambial seguem ampliando a volatilidade, dificultando a formação de preços mais estáveis e elevando a sensibilidade dos agentes a qualquer mudança no ambiente internacional. Tensões no Oriente Médio, incerteza cambial e oscilações nas bolsas internacionais de commodity se somam à pressão interna da safra e o resultado aparece no preço que o produtor recebe na porteira.
O momento é particularmente delicado porque os custos não recuaram na mesma proporção que o preço. O diesel, insumo central na colheita mecanizada, modalidade predominante nas lavouras de conilon de maior escala, subiu 12% no Espírito Santo em março de 2026, segundo a Agência Nacional do Petróleo. Levantamentos do setor estimam que esse encarecimento pode elevar em até 15% o custo operacional da etapa de colheita. Fertilizantes pressionados pela instabilidade do mercado global de insumos completam o quadro: mais custo de um lado, menos receita do outro.
Com o Custo Total estimado em R$ 590,78 por saca para propriedades com produtividade acima de 60 sacas por hectare, o preço atual de R$ 903,90 ainda sustenta margem positiva, cerca de R$ 313 por saca sobre o custo total. Mas para propriedades com produtividade abaixo de 20 sacas por hectare, a viabilidade já era comprometida mesmo quando o preço estava acima de R$ 1.200. A produtividade, mais uma vez, é o fator que separa quem consegue atravessar o período de queda de quem não consegue.
O Espírito Santo projeta colheita de 13,8 milhões de sacas de conilon em 2026, equivalente a 68,9% da safra nacional, com incremento de 40,3% em relação ao ciclo anterior. Safra recorde com preço em queda é a síntese do dilema que o produtor capixaba enfrenta neste momento. O volume vai ser grande. A receita por saca vai ser menor. E o custo de colher esse volume aumentou.
O produtor que planejou a safra com base nos preços de 2024 precisa revisar as projeções. Quem tem dívidas de custeio atreladas a receitas estimadas em patamares mais altos precisa conversar com o agente financeiro antes que o problema chegue ao vencimento. E quem ainda não precificou a safra com base nos custos reais de 2026 precisa fazer essa conta agora, porque o mercado já fez a dele.
