CASAMENTO MODERNO

Para ‘manter a pureza’: com primeiro beijo só no casamento, ‘namoro de corte’ vira febre entre jovens cristãos

Com meses e até anos resistindo à tentação, casais relatam a tensão da estreia já no altar e os efeitos positivos na relação;

Eles contaram no calendário: foram, ao todo, exatos dois anos, um mês e 18 dias. Nesse período, Isabela Nogueira Silva, de 28 anos, e Thiago Henrique Dias Silva, de 26, tomaram medidas como evitar ficar sozinhos em locais fechados, sem movimentação — tudo para não deixar a tentação passar perto. O casal aderiu ao “namoro de corte”, quando o primeiro beijo só acontece no momento do casamento, prática que vem se tornando cada vez mais comum entre jovens cristãos e que tem chamado a atenção nas redes sociais, onde vídeos com relatos dessas experiências viralizam com frequência.

Um desses conteúdos foi postado por Isabela no TikTok, onde ela detalhou como foi atravessar esses dois anos. A decisão teve um viés religioso, mas, segundo a administradora, não foi uma imposição da igreja evangélica que frequenta:

— Nossa igreja não colocava como regra, foi uma escolha pessoal. O processo até entender qual era o limite foi difícil, afinal, nos amávamos, nos desejávamos. Serviu para aprendermos a conversar, resolver nossas diferenças e a expor nosso coração. É maravilhoso para nossa vida a dois — assegura.

A decisão de não beijar durante o namoro foi tomada pela pedagoga Izabela Lakzielly, de 23 anos, e pelo prospector de venda Matheus Gomes, de 22, já no primeiro encontro. Para eles, foram dois anos e oito meses de abraços, beijos no rosto e superação de dificuldades.

— Em alguns momentos, abríamos mão de estarmos juntos por zelo, sabíamos que seria difícil manter a pureza tendo a intimidade do beijo. Algumas pessoas não entendiam nossa escolha, mas também notamos a admiração de outras — destaca Izabela.

A lista de perguntas ouvidas com frequência era extensa: “Mas nem um selinho?”; “vocês nunca se beijaram mesmo?”; “e se descobrirem no casamento que o beijo é ruim?”

Já entre o casal de futuros pastores Vitória Weigert e Marcelo Weigert, ambos de 24 anos, a proposta para o namoro de corte partiu dela. Passou-se um ano de espera desde o pedido até a cerimônia de casamento, que aconteceu em dezembro de 2025, em Curitiba, no Paraná.

— Não foi uma imposição dos meus pais, eu que senti no meu coração que só beijaria aquele que eu fosse casar. Minha motivação não veio através da religião, mas ter a ajuda de Deus nos momentos em que sentimos vontade ajudou — conta Vitória, que é filha de dois pastores da Igreja Aviva Portugal, país em que atualmente mora com o marido.

Pedido em 12 dias

Para os empresários cristãos Wesley e Pryslla Iportti, de 34 e 25 anos, respectivamente, tudo foi muito rápido. Do dia que se conheceram ao pedido de casamento, correram somente 12 dias.

Embora os dois já tivessem beijado em relacionamentos anteriores, a opção pelo namoro de corte estava tomada por ambos mesmo antes de se conhecerem. Wesley conta que a relação começou após ter feito um propósito de 365 dias em jejum e oração em busca de uma esposa.

— Passaram-se alguns meses e eu marquei o meu casamento sem ainda ter uma noiva. Quando a Pryslla chegou, muita gente acreditou no poder da fé, mas teve quem achasse que era algo combinado, marketing — admite Wesley.

A velocidade do pedido repetiu-se na organização da cerimônia, que aconteceu três meses depois. Ele lembra que, quando chegou a hora, o nervosismo atrapalhou:

— Foi muito gostoso, mas também algo novo e um pouco estranho no início. O beijo foi diferente, levou alguns dias para encaixar de forma mais natural, mas foi maravilhoso — garante.

Desde o começo, o relacionamento do casal foi compartilhado nas redes. Principalmente nas de Wesley, que já tinha seu perfil voltado para a produção de conteúdo cristão.

A influenciadora digital cristã Natália Bovetto, de 30 anos, que estava entre os convidados da cerimônia de Wesley e Pryslla, também viu o vídeo que postou mostrando o primeiro beijo do casal de amigos viralizar. Os registros do momento alcançaram mais de 5 milhões de visualizações:

— Não imaginava que teria tanta repercussão porque é algo natural na nossa vivência. Sabíamos, porém, que para quem não compartilha da fé cristã poderia causar impacto e despertar curiosidade. Muitas pessoas me procuraram dizendo que o vídeo as fez refletir e que se sentiram inspiradas a viver algo semelhante.

Fundador do movimento “Eu escolhi esperar”, que propõe que jovens aguardem o casamento para manter relações sexuais, Nelson Neto Júnior explica que as iniciativas voltadas para a pureza sexual englobam a questão do beijo, mas também temas como o envio de fotos íntimas e até mesmo uma troca de roupa na frente do parceiro.

— O beijo na boca não é considerado pecado, mas é mais uma parte integrada da relação sexual. Cientificamente falando, ele é relacionado a um ato sexual e não de carinho, com reações biológicas. Entendemos que é uma porta de entrada para o pecado sexual e encorajamos aqueles que querem chegar puros no casamento a não beijar até o casamento, porque vai ajudá-los a alcançar o objetivo — explica o pastor, frisando ainda que a decisão precisa ser consensual dentro do casal e não uma imposição de terceiros. — Se não for assim, vira um peso, e eles acabam quebrando a promessa.

A igreja e as convenções

Pastor e psicólogo, o líder da comunidade cristã progressista Ninho da Fênix, Hermes Carvalho Fernandes, declara-se contra a febre do namoro de corte, alegando que se trata de uma prática extremamente retrógrada:

— Nos tempos bíblicos não havia namoro, noivado e casamento como conhecemos hoje. Acredito que a igreja deve acompanhar as convenções sociais, que mudam com o tempo.

Ele lembra ainda que há um movimento crescente voltado ao conservadorismo, principalmente nas correntes neopentecostais. Mesmo não sendo um comportamento comum a todas as denominações cristãs, diz, existem, sim, igrejas que incentivam ou até impõem a necessidade de um namoro sem beijo na boca — algo que, para ele, pode trazer consequências graves:

— Recebo em meu consultório casos de jovens que não conseguem cumprir as determinações e passam a ter traumas, se sentem sujos e pecadores. Fora os casos em que os casamentos são feitos com pressa só para que eles tenham relações, sem o devido tempo de se conhecerem, o que gera ainda mais sofrimento no futuro, já que o divórcio também não é permitido.

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