Se tem uma categoria que aderiu ao carro elétrico, é a de motoristas de aplicativo. Apesar de as empresas não divulgarem a penetração desse tipo de veículo na base, quem usa o serviço percebe: nos últimos meses, ficou mais comum entrar em um carro elétrico em uma corrida.
Nos grupos de motoristas, o tema virou rotina. Mas, na hora de escolher qual modelo comprar ou alugar para trabalhar, a conta não depende só de preço, autonomia ou gasto com recarga. Depende também de onde a Uber aceita cada carro.
Foi isso que Pedro César descobriu ao procurar um elétrico para rodar no aplicativo. Segundo ele, as opções viáveis acabaram se concentrando em dois modelos: BYD Dolphin e Chevrolet Spark. Não necessariamente porque fossem os únicos que faziam sentido no papel, mas porque concorrentes diretos ficaram de fora das categorias mais interessantes…
“Eu me vi sem opção. Ou era Dolphin, ou era Spark. Para fugir deles, eu teria que pegar um carro mais caro”, diz.
A lógica por trás dessa escolha é simples. Para o motorista, não basta que o carro seja econômico. É preciso que ele também tenha acesso a categorias mais rentáveis, como Comfort e Black. Sem isso, o investimento perde força.
“Você gasta menos com combustível, mas o carro é mais caro, para o investimento se pagar mais rápido, é importante ter acesso às categorias mais altas, como Confort e Black”, afirma Pedro.
É aí que entra a dúvida. Hoje, carros como GWM Ora 03 e Neta Aya, que concorrem diretamente com o BYD Dolphin em faixa de preço e proposta, aparecem restritos ao UberX. Já Dolphin e Chevrolet Spark aparecem liberados para categorias superiores.
Na prática, isso significa que dois carros parecidos podem oferecer retornos bem diferentes para quem trabalha no aplicativo – não por características técnicas necessariamente evidentes para o motorista, mas pelo enquadramento que a plataforma decidiu dar a cada um.
Alguns casos chamam ainda mais atenção. O Chevrolet Spark EUV, por exemplo, aparece elegível para categorias superiores mesmo sendo um carro de quatro lugares. A rigor, ele não se enquadraria nem na categoria X, a mais barata, porque um dos pré-requisitos é ter cinco lugares. Já o Peugeot e-2008, maior e mais caro, saiu da Black, enquanto o e-208, menor e já fora de linha, segue listado.
Uber não revela critério
Procurada, a Uber afirmou que atualiza periodicamente a lista de veículos aceitos com base em pesquisas com usuários e na evolução do mercado. Disse também que alguns elétricos de quatro lugares são aceitos “de forma excepcional”, por serem opções mais acessíveis. A empresa, porém, não detalhou quais são os critérios objetivos para essas decisões.
O tema ganha relevância em um momento em que o mercado de elétricos entre motoristas de aplicativo ainda está em formação, mas cresce rápido. Quando lançou a categoria Uber Green no Brasil, a empresa informou que o número de carros elétricos na plataforma havia avançado mais de 500% em um ano.
Nesse contexto, estar ou não nas categorias mais rentáveis pode definir quais modelos se tornam mais atraentes para quem vive do volante.
Parcerias
É também nesse cenário que entram as parcerias. Em 2024, a Uber anunciou um acordo global com a BYD para colocar até 100 mil veículos da marca na plataforma. Depois, firmou uma iniciativa semelhante com a General Motors no Brasil, com descontos, cashback e incentivos para a adoção do Chevrolet Spark EUV…
Para Pedro, a sensação é de que a escolha do motorista já não depende só do carro que ele quer ou pode pagar. “No fim, você acaba indo para o carro que a plataforma aceita melhor”, diz.
Sem critérios claros, o enquadramento deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a influenciar diretamente a disputa entre modelos no mercado e a decisão de compra de quem trabalha com aplicativo…
