O brasileiro não deixa de ler apenas por falta de interesse. A falta de estímulos e de acesso está entre os responsáveis por essa realidade;
Dezessete dias, 586 mil leitores cadastrados, 276 mil obras alugadas. Os números do MEC Livros, a nova biblioteca digital lançada pelo Ministério da Educação no início de abril, dizem muito sobre o cenário da leitura no Brasil.
É verdade que somos um país de maioria não leitora, mas os dados expressivos de procura pela nova plataforma confirmam o que também já sabíamos: o brasileiro não deixa de ler apenas por falta de interesse. A falta de estímulos e de acesso está entre os principais responsáveis por essa realidade. Mais de 63% das escolas públicas não possuem biblioteca, o que equivale a cerca de 114 mil unidades. E, para piorar, há diversos municípios onde ainda não há sequer uma biblioteca pública à disposição.
Ou seja, ainda que espaços públicos para leitura não sejam uma novidade, eles seguem inacessíveis para uma parcela significativa da população. E estimular a leitura não significa colocar livros em um local e esperar que o leitor, sobretudo das novas gerações, apareça. O tema “literatura” precisa chegar até o cidadão e a curiosidade pelas histórias deve ser incentivada. E é justamente nesses pontos que o MEC Livros acerta (e muito).
Uma plataforma digital que pode ser acessada a partir de uma tela é uma ferramenta que chega até onde as pessoas já estão. Quando não há o gosto pela leitura, convencer alguém a sair de casa, atravessar a cidade e entrar numa biblioteca pública pode ser um grande obstáculo. Agora, o usuário pode assistir a um vídeo sobre um livro nas redes sociais, sentir curiosidade por aquela história e, com apenas alguns cliques, começar a leitura. No ônibus, no intervalo do trabalho, deitado na cama.
E não há como ignorar que as redes sociais têm um papel relevante nesse estímulo. Os conteúdos sobre livros aumentam a cada dia e, para alguém que não se depara com esse tema no seu dia a dia, um simples contato com um vídeo de poucos segundos pode funcionar como um gatilho de interesse. Até porque, como sabemos, o assunto, em geral, ainda não é rotineiro. E quem se sente solitário nesse interesse pode encontrar nas redes uma sensação de comunidade.
Também vale mencionar que o MEC Livros não é a primeira iniciativa do gênero. A “BibliON”, lançada em 2022 por iniciativa da Secretaria da Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, é um exemplo de plataforma semelhante. No entanto, a dimensão de uma biblioteca digital lançada pelo governo federal é maior, conseguindo atingir leitores (novos ou antigos apaixonados) por todo o país. A plataforma começou com cerca de oito mil títulos e, em apenas algumas semanas, foi ampliada para 25 mil, contando com opções muito diversas.
É claro que uma biblioteca digital não resolve o problema da leitura no Brasil. Não substitui o professor que apresenta o primeiro livro, os pais que mostram o exemplo dentro de casa ou a biblioteca escolar que nem sempre existe. No entanto, é um avanço importantíssimo e uma demonstração de que existem formas de enfrentar um desafio que só cresce: o de formar novos leitores num cenário marcado por telas, distrações e muita desigualdade. Agora que o livro chegou ao leitor, a próxima tarefa é levar o leitor ao próximo livro.
