Marketing excessivo e a falsa segurança que a palavra “natural” causa ajudam a explicar o consumo desmedido deste tipo de produto. Aqui, tire as suas dúvidas sobre o assunto;
Em março, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta relacionado ao uso de cápsulas de medicamentos ou suplementos alimentares que contêm cúrcuma (também conhecida como açafrão). Investigações internacionais identificaram casos raros, mas graves, de inflamação e danos ao fígado associados ao uso desses produtos em extratos concentrados. A medida se baseou em avaliações de diagnósticos de intoxicação hepática em pessoas que utilizaram produtos com cúrcuma ou curcuminóides. O problema está associado especialmente às formulações e tecnologias que aumentam a absorção da curcumina em níveis muito acima do consumo normal.
O uso culinário, do dia a dia, não está contemplado no comunicado — e segue sendo seguro. Entretanto, a medida reacendo o debate sobre o uso indiscriminado de suplementos alimentares tidos como naturais. Eles são realmente seguros? Podemos consumi-los por conta própria? Tudo o que vem da natureza é eficiente e sem riscos à saúde? A nutricionista Luanna Caramalac, de Campo Grande, elucida as principais dúvidas.
Para começar: quais são as diferenças entre fitoterápico, suplemento alimentar e medicamento?
Fitoterápico é um medicamento obtido a partir de plantas medicinais e precisa de autorização sanitária específica. Suplemento alimentar é um produto destinado a complementar a alimentação de pessoas saudáveis, com regras próprias de composição, segurança e rotulagem, e não deve fazer promessa terapêutica como se fosse remédio. Já medicamento é uma categoria regulada com exigências próprias de registro, qualidade, segurança e eficácia. Misturar essas categorias no discurso de marketing confunde o consumidor.
Quais são os maiores equívocos do público sobre suplementos naturais?
O primeiro é acreditar que, por serem naturais, podem ser usados sem orientação. O segundo é supor que “mais dose” significa “mais benefício”. O terceiro é esquecer que suplementos podem interagir com remédios, sobrecarregar o fígado e mascarar sintomas. E há ainda o erro de tratar suplemento como atalho de saúde, quando ele deveria entrar, no máximo, como parte de uma estratégia individualizada.
“Natural” significa necessariamente menos risco?
Não. “Natural” descreve a origem, não a inocuidade. Há compostos naturais extremamente ativos no organismo, e alguns podem ser tóxicos em determinadas doses, formulações ou contextos clínicos. O risco depende da substância, da concentração, da absorção, do tempo de uso e da vulnerabilidade individual.
Você acredita que o marketing wellness contribui para a banalização do consumo?
Sem dúvida. Quando o wellness transforma cápsulas em símbolos de autocuidado instantâneo, ele pode banalizar o consumo e apagar a noção de risco. O problema não é falar de bem-estar; é vender a ideia de que todo produto natural é automaticamente benéfico, universal e seguro. Isso reduz senso crítico e estimula automedicação disfarçada de estilo de vida. Essa percepção é ainda mais perigosa em produtos que circulam com apelo de alta performance, detox ou anti-inflamatório.
Como escolher suplementos com mais segurança?
O ideal é priorizar produtos regularizados, de empresas com rastreabilidade, composição clara, dose definida e rotulagem compatível com a legislação. Também é prudente evitar formulações que prometem absorção “turbinada” sem clareza técnica, especialmente quando a substância já está sob reavaliação regulatória. E, claro, segurança não depende só da marca: depende também de saber se aquele produto faz sentido para aquele paciente, de acordo com um especialista.
O que verificar no rótulo antes de comprar?
Vale observar a forma do ingrediente, a quantidade por dose diária, advertências para grupos de risco, alegações exageradas, presença de associações que aumentem biodisponibilidade e se o produto tenta se vender como terapêutico quando, na prática, é suplemento. No caso da cúrcuma, a Anvisa já sinalizou preocupação especial com estratégias que aumentem a absorção da curcumina, justamente porque isso pode alterar o perfil de segurança.
Quais são os principais sintomas de intoxicação para prestar atenção?
Os sinais de alerta mais importantes são pele e olhos amarelados, urina escura, náuseas, vômitos, dor abdominal, perda de apetite e fadiga intensa. Em casos raros, a lesão pode evoluir para insuficiência hepática, por isso sintomas desse tipo exigem interrupção do produto e avaliação médica imediata.
