Imagine um mundo onde metade da população enxerga tudo embaçado de longe. Não é ficção científica e sim uma previsão da OMS para 2050.
A miopia, um dos erros de refração mais comuns, está se espalhando como uma epidemia, impulsionada por telas brilhantes, janelas fechadas e cérebros infantis subestimulados.
“Entre os erros de refração, a miopia é o que cresce atualmente de uma forma mais significativa, principalmente por causa de mudanças no estilo de vida”, aponta o oftalmologista Flávio Mac Cord, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia.
Mas o que está por trás desse fenômeno global?
Epidemia global
Filhos de pais míopes têm mais risco de desenvolver o problema, claro. No entanto, hoje o ambiente está empurrando mesmo quem nasceu com a visão em dia.
“Embora exista sim a predisposição genética, o crescimento explosivo da miopia nas últimas décadas se deve ao estilo de vida”, reforça Claudio Lottenberg, oftalmologista e presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein (SP).
O número de míopes vem crescendo mais rápido em áreas urbanas, especialmente entre crianças e adolescentes, cujos olhos ainda não estão completamente desenvolvidos, embora adultos também possam ser impactados em menor escala.
Estima-se hoje que o mundo tenha cerca 30% de pessoas com miopia e que esse número chegue a mais de 50% em 2050, dos quais 10% terão miopia em grau elevado…
De acordo com um estudo recente publicada no periódico British Journal of Ophthalmology, houve um aumento significativo na prevalência de miopia entre crianças e adolescentes nos últimos 30 anos, de 24% em 1990 para quase 36% em 2023. A pesquisa envolveu mais de 5,4 milhões de crianças e adolescentes em 50 países em todos os continentes e estima que em 2050 haverá quase 40% de míopes nessa faixa etária.
Segundo o Instituto Internacional de Miopia, os principais focos desse tipo de erro de refração são o Leste e o Sudeste Asiático, como Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura, China e Japão.
Segundo Lottenberg, o Brasil ainda tem prevalência menor que a Ásia, mas já vê um aumento expressivo desde 2019.
Um levantamento divulgado no fim de 2022 pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo indicou um aumento de 134% nos diagnósticos de miopia em menores de 19 anos entre 2019 e 2022 —de 866 para 2.026 casos até setembro do ano da divulgação…
A miopia além do “não enxergar de longe”
Na prática, quem tem miopia vê bem de perto, mas enxerga tudo embaçado à distância. Isso porque, a imagem é formada antes da retina ao invés de se formar sobre ela. “A formação da imagem se assemelha aquela que acontece dentro de uma máquina fotográfica onde a retina representa o filme. No caso do míope, essa imagem está na frente do filme”, explica Lottenberg…
É diferente da hipermetropia, onde o foco está atrás da retina, dificultando ver de perto, e do astigmatismo, em que a imagem fica distorcida em todas as distâncias.
E não é só um incômodo visual. Miopia em grau elevado, o que ocorre a partir dos 6 graus, pode levar a doenças sérias, como degeneração macular miópica, descolamento de retina, glaucoma e catarata precoce.
Os três primeiros exemplos, em estágios avançados, podem causar perda de visão irreversível. De acordo com o Instituto Internacional de Miopia, esse tipo de deficiência visual se tornará uma das principais causas de cegueira permanente em todo o mundo…
Luz demais de tela e menos do sol
Dois vilões modernos têm protagonizado o avanço da miopia: as telas e a falta de luz natural…
Hoje, crianças passam horas vidradas em tablets e celulares, com os olhos forçados a trabalhar a curta distância —o chamado “esforço acomodativo”. Isso, repetido por anos, pode literalmente “esticá-los”: o globo ocular cresce demais no eixo anteroposterior, e o foco da imagem se desloca.
“Como o olho é altamente plástico durante a infância e adolescência, ele é particularmente sensível a esses estímulos visuais”, aponta Lottenberg.
Ao mesmo tempo, a exposição à luz solar despencou, o que causa redução da liberação de dopamina na retina, um neurotransmissor que inibe o alongamento excessivo do globo ocular, principal causa anatômica da miopia.
“Mesmo em dias nublados, a luz natural é mais intensa do que a de ambientes internos. Ela ajuda o olho a crescer nas proporções certas, mantém o foco da visão exatamente sobre a retina e reduz o esforço de acomodação”, explica.
Infância é a janela crítica
Os especialistas são unânimes: a faixa etária mais crítica vai dos 6 aos 12 anos, justamente um período de grande plasticidade ocular e de bombardeio digital. Se a miopia se instala nessa fase, as chances de ela se agravar até a idade adulta são enormes…
“É nesse período que os pais devem ficar mais atentos a sinais como aproximação excessiva de livros e telas, queixas visuais e queda no desempenho escolar”, orienta Cord.
Quando notar algum desses fatores, o ideal é levar a criança a um oftalmologista para confirmar o diagnóstico. A recomendação é que o especialista seja consultado ao menos uma vez por ano.
Normalmente, a miopia se estabiliza na idade próxima dos 18 aos 21 anos…
Miopia e o cérebro infantil: o que a psicologia diz
Não é só o olho que sofre. A psicóloga e neuropsicóloga Juliana Barros, doutoranda em neuropsiquiatria e ciências do comportamento na UFPE, explica que o uso excessivo de telas também impacta o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças…
“Ambientes digitais oferecem estímulos imediatos e constantes, o que reduz a tolerância à frustração e dificulta a autorregulação emocional”, diz.
Do ponto de vista neurológico, os primeiros anos de vida são cruciais para a formação de conexões neurais, especialmente em regiões relacionadas à atenção, linguagem, controle inibitório e funções executivas —como planejamento e autorregulação.
“Para que essas redes se desenvolvam de forma saudável, é essencial que a criança vivencie interações concretas, sensoriais e relacionais, que as telas muitas vezes substituem”, explica e complementa: “Quando a criança passa muitas horas em frente a telas, ela reduz atividades ao ar livre, o que é um fator de proteção contra a miopia, além de limitar oportunidades para o corpo se movimentar e para os olhos exercitarem o foco à distância”.
Barros ainda traz um alerta: quanto mais as crianças se habituam ao conforto passivo das telas, menos motivadas ficam para buscar experiências reais —como correr no parque, olhar o céu ou participar de jogos que exigem raciocínio, atenção e paciência.
Além disso, crianças com problemas de visão têm risco maior de desenvolver depressão e ansiedade, dada a possibilidade de isolamento social causada pela condição, menos atividades físicas e queda no rendimento escolar por não enxergarem adequadamente. As atitudes negativas em relação ao uso de óculos podem também afetar o bem-estar psicossocial…
Como prevenir (e conter o avanço)
A boa notícia é que atitudes simples podem contribuir com a prevenção ou o avanço da miopia. Veja as orientações dos especialistas:
Exposição diária à luz natural: Ao menos duas horas por dia ao ar livre. Pode ser no recreio da escola, na praça do bairro ou no quintal de casa.
Redução do tempo de tela: Evitar ao máximo o uso em crianças menores de 2 anos. Para as maiores, estabelecer regras claras, com horários e combinados previamente definidos —e dar o exemplo. Crianças entre 2 e 5 anos, no máximo 1 hora, e a partir de 6, 2 horas…
A famosa regra 20-20-20: A cada 20 minutos em frente à tela, pare por 20 segundos e olhe para algo a 6 metros de distância. Isso alivia o cansaço ocular.
Pausas e boa iluminação na leitura: Evitar longas sessões de leitura sem intervalos, principalmente em ambientes mal iluminados…
Distância de leitura: Oriente as crianças a manterem uma distância adequada durante a leitura, evitando segurar os livros muito próximos aos olhos.
Consultas regulares ao oftalmologista: Quanto antes for feito o diagnóstico, melhores as chances de controle.
E para quem já tem miopia?
Além do acompanhamento oftalmológico, algumas medidas ajudam a evitar a progressão acelerada:
Colírios de atropina em baixa dosagem;
Óculos e lentes especiais com design para controle de miopia;
Cirurgia refrativa a laser, em casos específicos e com avaliação médica.
“Combinado a bons hábitos visuais, esses recursos podem reduzir significativamente a piora do grau ao longo dos anos”, afirma o oftalmologista Flávio Mac Cord.
